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Universidade pra quê?
O que a declaração do ministro da Educação tem a ver com uma série adolescente da Netflix
date_range05/02/2019 às 13:48

Ministro Ricardo Vélez Rodríguez| Reprodução.

Jornalista Patrícia Mirelly

“Alguém que faz as regras, não que precisa segui-las”. A frase é da personagem Nadia Shanna, que sofre duplo preconceito na série espanhola “Elite”, exibida ano passado pela Netflix: por ser pobre e por ser mulçumana.

Na cena, Nádia confronta um professor no primeiro dia de aula: “Daqui sairão os futuros líderes”, ele diz, no afã de motivar os alunos. Ao que ela responde: “Esse é o meu medo”. 

Nádia e outros dois alunos foram transferidos de uma escola pública para um conceituado colégio da Espanha, após uma construtora ocasionar a destruição do prédio onde estudavam. A oferta das bolsas quer ser uma “retratação” ao “incidente”. E a notícia é suficiente para evidenciar o conflito de classes: “Um tarado, uma extremista e um estouradinho”, como são rotulados pelos veteranos já no primeiro dia de aula. 

Mas há um diálogo, em particular, vale ser reproduzido na íntegra. No afã de motivar os alunos a obterem notas elevadas, o professor explica a “técnica da curva dos sinos”:

- De um lado, fica a minoria com baixa capacidade intelectual. Do outro, fica a minoria extremamente inteligente. E a maioria fica no meio. Alguém leva um dez e alguém leva um zero. O resto fica por aqui [solto]. Nunca vão existir dois dez e dois zeros.

Ao que um dos alunos questiona: 

- Mas isso não é meio injusto?

- Alunos, isso prepara vocês para a vida! Lá fora, se fizeram parte desses que não rendem tanto, não conseguem nada. E, no topo do pódio, não pode ter duas pessoas. 

As falas de Nádia e a técnica utilizada pelo colégio traduzem a recente declaração do ministro da educação, Ricardo Vélez Rodriguez, em entrevista ao jornal Valor Econômico, na qual afirma que “a ideia de universidade não é para todos”, por isso deve ser reservada à “elite intelectual”, ou seja, a minoria “extremamente inteligente”.

Por ser ministro da Educação, deveria considerar que muitos fatores influenciam as trajetórias dos estudantes, e que alguns desses fatores se chamam expectativa e educação de qualidade, fundamentais para que os alunos possam se engajar com a escola (neste caso, a universidade) e com a aprendizagem. 

Ocorre que a maioria dos jovens receia conceber a educação de qualidade como um direito, um campo valioso e requisito para a emancipação social e intelectual, justamente, por declarações como essas do ministro, que também considera ser mais conveniente ofertar ensino técnico, garantia de emprego. A diferença entre estas duas formas de ensino, graduação e técnico, está no início deste artigo. 


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Sobre
Jornalista formado pela UFCA, radialista desde 2013 com passagens por emissoras de rádio de Caririaçu e Juazeiro do Norte. Na televisão, realizei produção jornalistica para Tv Verde Vale de Juazeiro do Norte. No site Miséria, atuei como redator e editor de Cultura. Repórter do Portal News Cariri. Também prestando serviço de Assessoria de imprensa para instituições privadas, artistas e parlamentares.