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Monsenhor Ágio “respeito, humildade e obediência são as qualidades para um bom músico”
date_range18/06/2018 às 00:26

Por Rafael Pereira

Estudante de Jornalismo

É numa casa sem muitos luxos que vive o Monsenhor Ágio. Subindo os degraus estreitos da morada de mais de 50 anos, lá está ele recluso na salinha pequena sentado, lendo ou escrevendo alguma coisa numa mesinha que lhe serve de escrivaninha. Essa é a vida pacata e tranquila que escolheu esse sacerdote que o tempo conservou quieto e ainda absorvendo a sabedoria do mundo. Suas leituras podem durar horas, quando não passa o tempo escrevendo em um caderno seus próximos livros, numa caligrafia impecável.

 

Mas para manter-se hoje neste estado de completa quietude foram preciso anos dedicados ao sacerdócio à Sociedade Lírica do Belmonte (SOLIBEL), entidade beneficente da qual é presidente, que acolhe crianças pobres na sua maioria é filha de agricultores, com o ensino de música, canto e instrumentos musicais.

 

Seu jeito é de despreocupado que carrega na face a serenidade e o sorriso. Talvez esse seja um dos seus segredos para o elixir da vida que o mantém lúcido aos exatos 100 anos de idade. Mas essa mente serena com os dotes de “paz e amor” foi adquirida com o gosto pela música e no ensino, que o acompanham durante boa parte de sua vida.

A vocação para o sacerdócio descobre ainda adolescente. E a sede para o conhecimento o alimenta desde quando ajudava o pai na farmácia.  Augusto, pai do menino Ágio, foi um desses aventureiros que saiu do Cariri à São Paulo, e quando teve oportunidade de se tornar candidato a prefeito da “política suja do Quixará (hoje Farias Brito)”, como o próprio padre conta. Na ida a São Paulo, acompanhou o pai, mas para estudar no seminário, mesmo sem o consentimento da mãe. De lá, foi para Fortaleza e depois concluiu os estudos no seminário São José no Crato.

Tornou-se vigário em diversas paróquias da Diocese de Crato, mas dizia que não gostava da vida de padre de paróquia; “É por causa do cavalo meu filho”, é assim que ele confessa rindo e dizendo que levava diversas quedas do animal. Era um dos únicos meios de transporte de uma época que sacerdote andava a cavalo por quilômetros visitando capelas. Foi por consentimento do bispo da época que desistiu da vida peregrina de vigário e foi estudar música, gosto que o permitiu a construir uma orquestra no seminário São José, como também se tornou professor de música por muitos anos no Colégio Estadual Wilson Gonsálves para uma turma de 90 alunos. Ele de fato se encontrou.

 

Construiu, com a ajuda de agricultores e trabalhadores dos engenhos da redondeza, a escolinha de música ao lado da casa, ao sopé da Chapada do Araripe, no sítio Belmonte. Agricultores, ou filhos destes, passavam pelos estudos das linhas de partitura. De um som ainda desajeitado de mãos duras de calos dava para sair um pouco de música da flauta, do acordeom, violão ou de um violino. As composições eram das mais variadas: de Beethoven a Mozart, Chopin, Villa-Lobos... ou as letras populares como Luiz Gonzaga.

 

E durante os quase meio século de existência da escola de música, formaram-se os mais diversos alunos, todos filhos saídos da pobreza. E com o tempo a SOLIBEL edificou seus filhos que se espalharam pelo Brasil e pelo mundo entoado nas composições dos grandes clássicos. Hoje muitos deles ensinam na escola passando seus conhecimentos para os pequenos e futuros músicos da escola.

Além de um grande entendedor de música, padre Ágio também ama a vida e a natureza. Mesmo idoso, até seus 90 anos, não abria mão de uma pedalada pelas trilhas da chapada, percorrendo todos os dias mais de 48 quilômetros até o Caldas, em Barbalha. Por diversas vezes ele conta que desafiou o fôlego de muito rapaz novo, que duvidavam que velho não tinha fôlego. Escreveu até livro sobre os benefícios da bicicleta para a saúde. Outro gosto é o caju, fruta que aprecia ainda hoje. Tem até o livro do caju também. Pratica Yoga e reza missa todos os dias.

A paixão por viver, se transformou em música para seus ouvidos que ainda muda a vida de muitas crianças da comunidade do Belmonte. Monsenhor Ágio carrega nos anos a alegria e o gosto por estar satisfeito com o que fez. Sua altivez de mestre e benfeitor não passam assim como não se esvai a lucidez. Simples, acolhe a qualquer um que chega a sua salinha para conversar. Enquanto a vida passa e seus meninos estão lá fora aprendendo e ensinando, ele está quieto, satisfeito com o que cumpriu. Como ele mesmo diz: “quando eu for embora, vou deixar a SOLIBEL como herança pro Crato.”

 


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Sobre
Jornalista formado pela UFCA, radialista desde 2013 com passagens por emissoras de rádio de Caririaçu e Juazeiro do Norte. Na televisão, realizei produção jornalistica para Tv Verde Vale de Juazeiro do Norte. No site Miséria, atuei como redator e editor de Cultura. Repórter do Portal News Cariri. Também prestando serviço de Assessoria de imprensa para instituições privadas, artistas e parlamentares.