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A imortalidade, o título, o fardão: Jorge Amado esmiúça os bastidores da ABL
O livro, portanto, não se tratava de fábula ou mera semelhança com instituições, etc.: foi, antes, resultado das observações meticulosas do autor de “Gabriela, cravo e canela” e “Dona Flor e seus dois maridos”.
date_range09/09/2018 às 21:29

Livro Farda Fardão Camisola de Dormir de Jorge Amado ( Imagens Reprodução).

Escreveu Patrícia Mirelly

Brasil, Estado Novo. Corre a notícia de que o renomado poeta Antônio Bruno, membro ilustre da Academia Brasileira de Letras (ABL), falecera, em Paris, enquanto compunha soneto: “a camisola de dormir”. Evidentemente, é aberta vaga. Com ela, disputada - e violenta - corrida à cadeira, “dado o inegável prestígio da entidade”. 

O Desembargador Lisandro Leite, também membro da ABL, sob a desculpa de que as forças militares deveriam retomar o posto que lhes era cativo, apressa-se em indicar o Coronel do Exército Agnaldo Sampaio Pereira. Faz isso, tão somente, por interesse: “O fardão pela toga do Supremo Tribunal Federal”. 

Os demais membros da ilustre casa fundada por Machado de Assis, Afrânio Nunes e Evandro Portela, amigos íntimos do falecido, afrontados com tal indicação (o confrade odiava o militarismo e tudo quando dele provinha) reagem, indicando um candidato de patente maior, aparentemente avesso ao autoritarismo: General Waldomiro Moreira.

O que disso se desenvolve é esmiuçado com toda a eloquência da escrita - por vezes sátira, por vezes ácida – de Jorge Amado, em livro de nome curioso: “Farda, fardão, camisola de dormir”, no qual descortina os bastidores da ABL: "O fardão, a imortalidade, a fama, os chás", que abrigam conspirações, futricas, trambiques e muita perspicácia na articulação das ‘campanhas’.

Embora, no início, o autor sublinhe que “toda e qualquer semelhança com tipos, organizações, academias, classes, castas, figuras e sucessos da vida real será pura e simples coincidência", chegando mesmo a considerar a escrita uma ‘fábula’, as análises e conclusões descritas são surpreendentes e ganham ressonância, se trazidas à realidade.

No último dia 30 de agosto, pleiteava a cadeira de número 7, que pertencia ao cineasta Nelson Pereira dos Santos, falecido em abril, a professora universitária Conceição Evaristo. Com ela, concorriam outros 10 nomes, entre eles o cineasta Cacá Diegues, e o editor e historiador de arte Pedro Corrêa do Lago.

Em 121 anos, a Academia Brasileira de Letras contou, apenas, com oito mulheres. A primeira delas foi Rachel de Queiroz, com o ‘Quinze’. Depois, vieram Diná Silveira de Queirós, Ana Maria Machado, Cleonice Berardinelli, Rosiska Darcy de Oliveira, Lygia Fagundes Telles, Zélia Gattai e Nélida Piñon. Esta fora a primeira mulher a presidir a ABL. Ana Maria Machado também chegou assumir a chefia, mas quinze anos depois.

Vamos aos fatos. Caso fosse admitida, Conceição Evaristo, premiada com o Jabuti de 2015 (considerado o ‘Oscar da Literatura’) seria a 9ª mulher e a 1ª mulher negra e a integrar a “Academia dos imortais”. Mas não foi, e ela recebeu apenas um voto. Foi eleito Cacá Diegues, autor de filmes como “Xica da Silva” e “Bey, Bey, Brasil”.

A intenção parece seguir a mesma do Desembargador Lisandro Leite, de “cadeira cativa”. Ocorre que isso acaba é lançando luz a outro fato: a instituição parece estar apática à ideia representatividade. Ou, como na “moral de fábula” de Jorge Amado, conserva mesmo um lado e o pleito, por assim dizer, também é movido por posições ideológicas, políticas e culturais.

O livro, portanto, não se tratava de fábula ou mera semelhança com instituições, etc.: foi, antes, resultado das observações meticulosas do autor de “Gabriela, cravo e canela”, “Dona Flor e seus dois maridos”, "Capitães da areia" e tantos outros. A coincidência com a realidade fala sozinha.


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Sobre
Jornalista formado pela UFCA, radialista desde 2013 com passagens por emissoras de rádio de Caririaçu e Juazeiro do Norte. Na televisão, realizei produção jornalistica para Tv Verde Vale de Juazeiro do Norte. No site Miséria, atuei como redator e editor de Cultura. Repórter do Portal News Cariri. Também prestando serviço de Assessoria de imprensa para instituições privadas, artistas e parlamentares.