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Tu já assistiu aquela novela das 7?
Mais do que entretimento, para aplacar o fardo dos dias, precisamos é ser instigados ao pensamento, à reflexão, à crítica.
date_range26/08/2018 às 00:21

A trama traz um pouco do universo cinematográfico da década de 80. ( Reprodução/ Observatório da televisão)

Patrícia Mirelly,jornalista

Fala-se ainda muito mal das novelas da Globo, pelos excessos, pelos exageros, mas já se fala algum bem e com mais simpatia de uma, em especial. Tu já assististe aquela das 7? 

A trama, à primeira vista, de tal surreal, parece clichê: uma família de séculos passados (cento e trinta e dois anos, para ser mais precisa) congelada em laboratório de estudo, após um naufrágio. Mas aqui está a grande ‘sacada’: o patriarca, com raízes no Império, de nome ‘Dom Sabino’, e a primogênita, ‘Marocas’, despertam do tal ‘congelamento’ e desembocam numa ‘urbe’ frenética, com alta tecnologia, completamente avessa, portanto, àquela em que foram habituados.

“E a tal república dos idealistas vingou? E com privilégios para todos?”, pergunta a filha ao ser ‘apresentada’ à ‘nova organização política’. 

Isso não deixa qualquer dúvida ao telespectador. Mesmo o menos letrado, mas que acompanha noticiário, sabe que se trata de crítica ferrenha - e inteligente - à conjuntura em que vivemos, o Brasil que temos, mas não queremos. 

“Dom Sabino, a sua família está sob poder do Estado”, justifica um advogado. 

O patriarca, por sua vez, rebate: “ O Estado sou eu, o Estado é o povo”

Os diálogos, como se vê, além de bem construídos, são bem interpretados e cheios de humor, mas aquele humor inteligente, que faz pensar. O conjunto da obra traz, ainda, legítimas expressões da nossa dramaturgia, ultimamente tão sufocada em repetições de atrizes, de papéis, de enredos. 

Mais do que entretimento, para aplacar o fardo dos dias, precisamos é ser instigados ao pensamento, à reflexão, à crítica. Quem não o permite, perde a chance de se mostrar ativo em relação a si e às circunstâncias que o cercam. Perde até vitalidade.

‘O tempo não para’, portanto, está vitoriosa, e aqueles telespectadores, como eu, que pouco a pouco vão se rendendo à história, podem orgulhar-se ao ver a dramaturgia brasileira retomando, pelo menos por esta vez, o único caminho que poderá levá-la a reabilitar-se com o público, se continua a ser trilhado assim, com inteligência, com humor, fazendo pensar, fazendo refletir. 

“Tu já  assististe aquela novela das 7?”. 


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Sobre
Jornalista formado pela UFCA, radialista desde 2013 com passagens por emissoras de rádio de Caririaçu e Juazeiro do Norte. Na televisão, realizei produção jornalistica para Tv Verde Vale de Juazeiro do Norte. No site Miséria, atuei como redator e editor de Cultura. Repórter do Portal News Cariri. Também prestando serviço de Assessoria de imprensa para instituições privadas, artistas e parlamentares.