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Verônica Carvalho: “hoje a gente está pronta pra luta”
Representante dos movimentos de mulheres e valorização negra, Verônica enxerga que os problemas da violência estão nas estruturas da sociedade.
date_range23/08/2018 às 19:03

Verônica Carvalho (Foto: Arquivo pessoal)

Por Rafael Pereira

No último final de semana dois casos de feminicídio chocaram o Ceará: a professora Silvany, morta pelo ex-marido em praça publica, no Crato, e, em Acopiara, Jaqueline foi morta a pauladas pelo companheiro. Dentre esses, somam-se vários casos de violência contra a mulher que aconteceram nos últimos anos no Cariri. Exemplos: o caso Raiane, sequestrada e morta a facadas pelo ex-namorado, em 2016, e a travesti Pâmela Pamaniki, morta em 2017. Tivemos um Papo Reto com Verônica Carvalho, ativista e uma das maiores representantes dos movimentos de mulheres do Cariri, para falar sobre violência contra as mulheres.

Papo Reto: Sobre os últimos casos que vem acontecendo de feminicídio na região, inclusive o que matou a professora Silvany Sousa, o que está acontecendo? As políticas publicas em defesa da mulher estão sendo eficientes?

Verônica Carvalho: Eu penso que as desigualdades, de maneira geral, deixam alguns seguimentos bastantes vulneráveis, ou mais vulneráveis. Dentre esses, as mulheres com certeza são historicamente impactadas. A violência por sua vez, ela tem essas relações muito forte com relação ao gênero, a raça, a questão da renda tudo isso é um emaranhado de coisas que faz com que essa violência aflore. O feminicídio muitas vezes estava relacionado somente a um relacionamento amoroso. Mas infelizmente, hoje, são práticas realmente criminosas que deixa a gente numa situação realmente de muito abandono, inclusive pelas políticas públicas. É o modelo de educação que não trabalha essas questões. Eu penso que isso em todos os aspectos, em todos os lugares do mundo, tem nos deixado muito fragilizadas. Se você prestar atenção, as mulheres que estão em situação de cárcere, a própria politica de segurança, a questão do trabalho, a questão do acesso e permanecia na educação, tudo isso já vai demarcando as desigualdades. Então isso aí são politicas que não alcançam. Embora, a gente pode dizer que a lei Maria da Penha é um mecanismo muito importante, e é, mas ela não esta sendo cumprida na sua totalidade. Esse último feminicídio, que aconteceu aqui na região do Cariri, teve outro em Acopiara, nos deixa muito desanimadas e a refletir: será que o que a gente tem feito tem sido suficiente? Num é para a gente desanimar, a gente tem que achar forças que nos motive a ser resistentes, a continuar na luta. Isso tem sido um desafio muito grande, grande mesmo.

PR: Como estão as lutas contra o feminicídio organizadas pelos movimentos sociais da Região?

Verônica Carvalho: Estão cada vez mais organizadas. Exatamente porque algumas estatísticas colocam que houve um decréscimo no número da violência, coisas que nós dos movimentos não acreditamos. A gente acredita é numa sub-notificação, quando as mulheres não procuram os órgãos competentes. Nem todas as mulheres que procuram o movimento, elas procuram as portas de entrada da violência, ou seja, as delegacias, a rede como um todo. Mas isso tem feito com que as organizações, as entidades, a própria Igreja (Igreja Católica) estão tendo uma preocupação de trabalhar essas questões através de capacitação, através de processo formativo. Aqui no nosso Cariri, nós ganhamos uma força muito grande com a Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri. A gente pode perceber que o movimento de mulheres ele tem se organizado aqui no Cariri pra luta, ele tem demarcado espaço. E não é somente quando acontece um fato dramático como esse (morte da professora), mas, de janeiro a janeiro, nós estamos promovendo ações, formações, atos de ruas, mobilizações no sentido de fazer com que a sociedade possa refletir sobre essas desigualdades, sobre essas violências que nos põe pra baixo. Então nesse sentido eu posso afirmar pra você que o movimento feminista na nossa região ele tem cumprido seu papel, que é o papel de mobilizar, de articular a rede, de animar as mulheres e homens, para a construção de uma sociedade de paz. Embora muito há de se fazer. A gente precisa realmente promover campanhas e provocar o poder público para que ele faça seu papel, porque o movimento social não pode fazer o papel que é do poder público.

PR: Os casos de feminicídio que aconteceram na região, nos últimos anos, estão sendo resolvidos pela justiça? As autoridades estão ajudando a resolver?

Verônica Carvalho: Bem, o tempo da justiça é difícil viu. A gente sabe que foram encaminhados (os processos). Por exemplo, ainda daqueles crimes do escritório do crime tem casos ainda que não foram julgados, faz muito tempo. A justiça é morosa. O caso da Raiane também não foi ainda a júri popular. Então o nosso papel a gente acompanha, a gente vai atrás, a gente tenta acompanhar as famílias, a gente cobra. Mas tem alguma coisa técnica e burocrática que foge ao nosso alcance. O que a gente faz é essa pressão que é nosso papel, agora outras questões foge ao nosso alcance.

PR: Recentemente entrou em tramitação na câmara um projeto de lei que institui nas escolas do Crato  para que discutam sobre a Lei Maria da Penha aos alunos da rede pública. Como você ver medidas como essa? Elas são eficientes?

Verônica Carvalho: Normalmente quando há um caso trágico, como foi o da Silvany, geralmente o poder legislativo solta alguma medida. E o que eu quero dizer é que medidas como essa que estão tramitando, ela já vem é tarde. Essas nossas crianças, essa nossa juventude, precisão aprender desde muito cedo. Projetos de lei como esse que tá chegando é tarde. Então a gente fica na expectativa e eu valorizo medidas como essa.

PR: Como você pessoalmente se sente, enquanto mulher, ver esses casos de feminicídio acontecendo na Região?

Verônica Carvalho: Eu vejo com muita tristeza. Mas, essas violências todas dá em nós uma garra. Eu penso até assim: a gente estava na praça chorando juntas e a gente tem direito a esse choro, esse choro coletivo, esse luto. Mas hoje a gente está pronta pra luta, tá motivada, e quem dá essa motivação é Silvany, é Marielle Franco, é Raiane é tantas e tantas mulheres que foram assassinadas. Então nós somos a voz delas e a gente não vai desistir enquanto não houver justiça. Pra tanto a gente vai ocupar os espaços onde for preciso, lutar por uma educação inclusiva, lutar por respeito, por igualdade, por trabalho. Então essa situação nos dá força, a gente não pode desanimar. Porque isso é uma luta cotidiana, todo dia a gente atende um caso, dois, três... mas se a gente sabe que em cada lugar tem uma lutadora. Então, essa mobilização que aconteceu agora, enquanto a gente estava no velório, a gente olhava para as pessoas e se perguntava: quem será a próxima? Depois o caso de Silvany, eu pessoalmente já atendia uns cinco casos; a minha irmã que é do Movimento já atendeu outros. Então, estamos conversando umas com as outras e vendo o quanto que se ampliou o número de atendimentos depois do caso de Silvany. Então é assim: é garra, é luta, é resistência.

 

 

 


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Sobre
Jornalista formado pela UFCA, radialista desde 2013 com passagens por emissoras de rádio de Caririaçu e Juazeiro do Norte. Na televisão, realizei produção jornalistica para Tv Verde Vale de Juazeiro do Norte. No site Miséria, atuei como redator e editor de Cultura. Repórter do Portal News Cariri. Também prestando serviço de Assessoria de imprensa para instituições privadas, artistas e parlamentares.